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A Música no Cinema: Leonard Bernstein

Domingo, 24.01.10

  

Há duas formas de colocar a música num filme, pelo menos é o que verifiquei ao longo de anos a ver filmes: de forma fusional ou de forma justaposta (como uma sinalização ou identificação).

A minha preferida é a primeira, quando a música acompanha as cenas e passa a fazer parte delas. Esta ligação deve implicar um processo muito trabalhoso: a imagem não pode ser submergida pela música, nem a ideia contrariada ou caricaturada, a não ser que seja essa a intenção. Nos filmes de Hitchcock, Bernard Herrman fá-lo de forma magistral.

 

Embora possa parecer fusional, sempre que a música sugere uma personagem ou um lugar ou uma ideia, considero-a justaposta, como se lhe colássemos em cima uma etiqueta a identificá-los. Exemplo: revi há dias o Guerra e Paz com o Henry Fonda (Pedro) e a Audrey Hepburn (a Natasha mais comovente que já vi) e a música era um pavor. Quando os soldados franceses, já em retirada, se deslocam penosanamente pelos pântanos russos, nesse Inverno rigoroso, há partes em que os acordes sugerem a Marselhesa. Estão a ver a ideia?

Em Manhattan, Woody Allen revela o seu amor a Nova Iorque e é a música de George Gershwin que nos acompanha. Em muitos dos seus filmes a banda sonora é uma homenagem a compositores americanos.

Assim também é nos musicais: a música adquire um estatuto próprio, os actores colocam-se quase em sentido, passam a cantores. Mesmo que o façam naturalmente, como na Serenata à Chuva.

 

Bem, hoje pensei em Leonard Bernstein, não pelo seu West Side Story mas pelo filme On The Waterfront. No filme a música acompanha as cenas e as personagens de tal forma que deixamos de conceber a imagem sem a música e a música sem a imagem. Vai do poético ao bélico e do bélico ao poético. Agarra-nos. Hipnotiza-nos.

O filme em si é um desafio, metade acção exterior, ameaças, perseguições, lutas desiguais, metade acção interior, o conflito, a dúvida, a revolta. Afinal, é Elia Kazan. É fascinante ver como a música consegue ligar tudo isso e transportar-nos para essa parte da cidade, a parte escura, a parte violenta. E para esse refúgio no terraço de um prédio, onde o rapaz cria pombos. Metaforicamente o filme é belissimo. (Lembram-se de um outro terraço assim, de um prédio escuro, no Blade Runner?)

Leonard Bernstein pertence a um grupo de pessoas com uma sensibilidade musical invulgar. Lembram-se dos seus Concertos para Jovens? Além de descodificar as frases musicais, a ideia, a emoção, o sentimento, e de nos ensinar a identificar os instrumentos e o seu papel ali, enquadra o compositor na sua época. Um professor magnífico, com uma rara capacidade de comunicação e de agarrar os ouvintes.  

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:44








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